segunda-feira, 20 de março de 2017




na faculdade


o professor


entre spots e comerciais


contou quando elegeu o governador Luiz Antônio Fleury Filho



- O mundo da propaganda tem dessas coisas, né, gente...


são paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã.
aqui estou, mais um dia.
sob o olhar sanguinário do vigia.
você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de
uma HK.
metralhadora alemã ou de Israel.
estraçalha ladrão que nem papel.
na muralha, em pé, mais um cidadão José.
servindo o Estado, um PM bom.
passa fome, metido a Charles Bronson.
ele sabe o que eu desejo.
sabe o que eu penso.
o dia tá chuvoso. O clima tá tenso.
vários tentaram fugir, eu também quero.
mas de um a cem, a minha chance é zero.
será que Deus ouviu minha oração?
será que o juiz aceitou apelação?
mando um recado lá pro meu irmão:
se tiver usando droga, tá ruim na minha mão.
ele ainda tá com aquela mina.
pode crer, moleque é gente fina.
tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá...
tanto faz, os dias são iguais.
acendo um cigarro, vejo o dia passar.
mato o tempo pra ele não me matar.
homem é homem, mulher é mulher.
estuprador é diferente, né?
toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés,
e sangra até morrer na rua 10.
cada detento uma mãe, uma crença.
cada crime uma sentença.
cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
misture bem essa química.
pronto: eis um novo detento
lamentos no corredor, na cela, no pátio.
ao redor do campo, em todos os cantos.
mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã...
aqui não tem santo.
rátátátá... preciso evitar
que um safado faça minha mãe chorar.
minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege.
tic, tac, ainda é 9h40.
o relógio da cadeia anda em câmera lenta.
ratatatá, mais um metrô vai passar.
com gente de bem, apressada, católica.
lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
com raiva por dentro, a caminho do Centro.
olhando pra cá, curiosos, é lógico.
não, não é não, não é o zoológico
minha vida não tem tanto valor
quanto seu celular, seu computador.
hoje, tá difícil, não saiu o sol.
hoje não tem visita, não tem futebol.
alguns companheiros têm a mente mais fraca.
não suportam o tédio, arruma quiaca.
graças a Deus e à Virgem Maria.
faltam só um ano, três meses e uns dias.
tem uma cela lá em cima fechada.
desde terça-feira ninguém abre pra nada.
só o cheiro de morte e Pinho Sol.
um preso se enforcou com o lençol.
qual que foi? Quem sabe? Não conta.
ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...)
nada deixa um homem mais doente
que o abandono dos parentes.
aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?
a vaga tá lá esperando você.
pega todos seus artigos importados.
seu currículo no crime e limpa o rabo.
a vida bandida é sem futuro.
sua cara fica branca desse lado do muro.
já ouviu falar de Lúcifer?
que veio do Inferno com moral.
um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um.
comendo rango azedo com pneumonia...
aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros,
Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis.
ladrão sangue bom tem moral na quebrada.
mas pro Estado é só um número, mais nada.
nove pavilhões, sete mil homens.
que custam trezentos reais por mês, cada.
na última visita, o neguinho veio aí.
trouxe umas frutas, Marlboro, Free...
ligou que um pilantra lá da área voltou.
com Kadett vermelho, placa de Salvador.
pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
com uma nove milímetros embaixo da blusa.
‘Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
lembra desse cururu que tentou me matar?’
‘Aquele puta ganso, pilantra corno manso.
Ficava muito doido e deixava a mina só.
A mina era virgem e ainda era menor.
Agora faz chupeta em troca de pó!’
'Esses papos me incomoda.
Se eu tô na rua é foda...’
‘É, o mundo roda, ele pode vir pra cá.’
‘Não, já, já, meu processo tá aí.
eu quero mudar, eu quero sair.
se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum.
e eu vou ter que assinar um cento e vinte e um.’
amanheceu com sol, dois de outubro.
tudo funcionando, limpeza, jumbo.
de madrugada eu senti um calafrio.
não era do vento, não era do frio.
acertos de conta tem quase todo dia.
ia ter outra logo mais, eu sabia.
lealdade é o que todo preso tenta.
conseguir a paz, de forma violenta.
se um salafrário sacanear alguém,
leva ponto na cara igual Frankestein
fumaça na janela, tem fogo na cela.
fudeu, foi além, se pã!, tem refém.
na maioria, se deixou envolver
por uns cinco ou seis que não têm nada a perder.
dois ladrões considerados passaram a discutir.
mas não imaginavam o que estaria por vir.
traficantes, homicidas, estelionatários.
uma maioria de moleque primário.
era a brecha que o sistema queria.
avise o IML, chegou o grande dia.
depende do sim ou não de um só homem.
que prefere ser neutro pelo telefone.
ratatatá, caviar e champanhe.
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!
cachorros assassinos, gás lacrimogêneo...
quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
o ser humano é descartável no Brasil.
como modess usado ou bombril.
cadeia? Claro que o sistema não quis.
esconde o que a novela não diz.
ratatatá! sangue jorra como água.
do ouvido, da boca e nariz.
o Senhor é meu pastor...
perdoe o que seu filho fez.
morreu de bruços no salmo 23,
sem padre, sem repórter.
sem arma, sem socorro.
vai pegar HIV na boca do cachorro.
cadáveres no poço, no pátio interno.
adolf Hitler sorri no inferno!
o Robocop do governo é frio, não sente pena.
só ódio e ri como a hiena.
rátátátá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.
mas quem vai acreditar no meu depoimento?
dia 3 de outubro, diário de um detento.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Concessões


A Companhia Vale do Rio Doce foi fundada em 1942 pelo governo brasileiro. Para explorar as jazidas de minério de ferro na região de Itabira, Minas Gerais. Forneceu matéria-prima para várias companhias, entre elas a Companhia Siderúrgica Nacional. Em 1997 toda parte acionária do governo brasileiro foi vendida para particulares. Assim como seu controle.
A Telebrás, Telecomunicações Brasileiras S.A, foi criada por meio da lei nº 5.792, de 11 de julho de 1972. Para centralizar, padronizar e modernizar as diversas empresas de telecomunicações que existiam no Brasil. Foi vendida no dia 29 de julho de 1998.
A ViaQuatro é uma empresa da Companhia de Concessões Rodoviárias. Responsável pelo funcionamento da Linha 4 Amarela do Metrô de São Paulo. Atua sob um contrato de trinta anos numa parceira público-privada acordada pelo Governo do Estado de São Paulo.

*
Encontramo-nos na antessala do proctologista. O assunto rumou para o trânsito da cidade. Mobilidade Urbana. Ônibus, carros e pedestres. Passamos aos ciclistas:
- Mas, você concorda que a cidade é ruim para o trânsito de bicicletas? Os motoristas passam raspando. Os semáforos não são regulados para as necessidades das bikes. As ciclofaixas e ciclovias são poucas.
- Sim. Mas cê sabe né. Tem ciclista também que.

*
Dia quente de verão. Estávamos nós dois no parque. Música intimista e sarau de poesia. Dois seguranças:
- O parque vai fechar.
- Fechar? Eu pensei que ficava sempre aberto.
- Não. Fecha. Agora às dez horas.
Recolhemos nossas coisas. Os dois homens passaram as correntes de ferro em volta do portão. Sai a sussurrar revolta. À estreita calçada, conversamos sobre a importância dos equipamentos culturais:
- Numa cidade como a nossa, uma das maiores do mundo, muita gente trabalha o dia inteiro. Elas não conseguem frequentar esses espaços. Os lugares tem de ficar mais tempo abertos, inclusive nos finais de semana e feriados.
- Tudo bem. Mas cê não acha dez tarde?

*
Rua Augusta. Sentido centro.
- É um absurdo. Em pleno século vinte e um gays são assassinados no centro de São Paulo com golpes de lâmpadas na cabeça.
- É. Mas, também, não precisam ser tão afeminados.

sábado, 16 de janeiro de 2016

As conchas de búzios

      As conchas de búzios. Todas elas em cima da minha mesa de cabeceira.
    Ontem encontrei Rodolfo na praça aqui perto de casa. Conversamos sobre o comportamento dele na viagem de fim de ano. Logo, ao combinarmos o encontro, ele deu para trás:
    - Conversar? Cê quer conversar? Conversar o quê?!
    Estávamos há um ano juntos mas o diálogo já se automatizara. Conhecíamos os tiques e repentes um do outro e evitávamos jogar conversa fora. Mas, altiva, acordei naquele dia e olhei as conchas da praia. As quais recolhi uma por uma, enquanto amargurava os jeitos e trejeitos de Rodolfo para com Lisa, na casa a qual alugamos em conjunto.
    Uma vez no parque:
    - Rodolfo, eu percebi todos seus olhares para com Lisa. Quando ela colocava o maiô você perdia a fala e esquecia-se do que conversava. No mar, nas brincadeiras que fazíamos com os brinquedos aquáticos que papai colocou na água para nós, você sempre relava mais nela do que em mim. Quando o maiô de Lisa subiu você sequer fingiu não se deslumbrar.
    - Camila, me deixe em paz. Você sabe o quanto a falência de meu pai afetou minha sensibilidade. Desde que tudo isso começou, com a Polícia Federal e seus agentes, fica mais difícil para mim manter a cabeça no lugar.
    Naquele momento um jovem chegou, olhou para nós, sentou-se a três bancos de distância e abriu um livro.
    Contudo, há mais ou menos três meses eu, Camila Odebrecht, confesso, também traí.
    Começara a usar o aplicativo Tinder, em meu smartphone. Apenas para passar o tempo. Descobria rostos, feições e poses e me divertia com isso enquanto a professora tentava dar aula. Abri, inclusive, uma conta fantasma no meu celular para que Rodolfo não descobrisse e não fizesse algo pior. Ele sempre fazia dessa maneira. Olho por olho, dente por dente, suscetibilidades à parte.
    Numa dessas, encontrei o perfil de Ricardo Gouveia. Moreno, alto, barba rente, branco. Era do meu tipo. Igualzinho a Rodolfo. Dessa vez decidi não passar batida. Acionei o aplicativo e possibilitei a Ricardo localizar-me pelo sensor de distância. Estávamos a três quilômetros um do outro. Mas parecíamos tão perto... Meu coração palpitava conforme passeei o olhar pelas suas fotos em Búzios.
    Ficamos assim, a medir as distâncias um do outro, por semanas. Um dia, veio-me uma mensagem privada:
    - Oi, Camila, tudo bem?
    Gelei. Era aula de sociologia e a professora falava do totemismo, uma ideia de certo Émile Durkheim. Para mim, esse nome sempre esteve ligado aos bárbaros celtas do novo filme do cinema.
    Barbaridade foi o desenrolar daquela conversa. Ricardo começou a me mandar fotos. Cada vez mais ousadas. Primeiro, ele debruçado por sobre uma prancha de surfe. Depois, a mesma pose. De noite.
    Decidi, certo dia, enquanto já mentalizava viajar com Rodolfo e nossos amigos para a praia, que precisava encontrar esse Ricardo antes de partir. Ano novo, vida nova, era o que todos me diziam. Mas, Ricardo, esse era uma figura que surgia ancestral em minha mente.
    Combinamos um encontro no Starbucks. Era meu refúgio. O local que permeou minhas vivências mais intensas dos últimos anos. Foi onde comecei a namorar Rodolfo. Também o sofá de couro do concretizar a amizade com Lisa. Além da negociação, na cobertura do prédio, com papai e mamãe, para o aumento da minha mesada.
    Esperei um frapuccino. Com dose extra de açúcar, como eu gostava. Diante de mim, a mesinha de apoio e o guarda-sol da loja. Sentei-me no meio do sofázinho de couro branco. Não queria nem pensar em Ricardo chegando e se alojando justamente ao meu lado. Não logo assim no começo.
    Navegava em meu smartphone. Havíamos marcado, Ricardo e eu, para às 19 horas. Meia hora antes lá estava. Justamente eu, que havia instituído o atraso como lex mater das relações com todos as outras pessoas do meu círculo social. E eu estudava Direito.
    Ricardo chegou. Exatamente como nas fotos. Melhor ainda: mais alto. Levantei-me estabanada e cumprimentei-o com um beijo na bochecha. Sentamos os dois e ficamos a nos olhar por dez segundos. Rápido ele emendou:
    - Vou buscar alguma coisa para mim.
    Nem me perguntou se eu gostaria de algo. Mas não tem problema.
    Voltou com um café expresso. Quem toma café expresso hoje em dia? Nossa! Ele não colocou açúcar. Figura interessante esse Ricardo Gouveia.
    Conversamos por cerca de uma hora. Sempre ligados aos tópicos do Twitter e do Facebook. Atenta ao Manual dos Encontros Extraonlines, prestei muita atenção aos movimentos de suas mãos, principalmente quando ele relava no copo de plástico o qual eu sorvia minha bebida. Apenas um momento, um único momento, fui ao banheiro e pensei ser estranho demais levar meu copo junto comigo. Pode ter sido naquela hora.
    Quando voltei. Ricardo sugeriu que fôssemos a um boteco ali perto do Starbucks. Incerta, segui sua sugestão. Comecei a sentir-me cada vez mais solta e, ao primeiro gole de cerveja uma leveza apoderou-se de minhas pernas. Derreti na cadeira sem mover um centímetro a bunda. É tudo que me lembro. O resto são fragmentos. O apartamento de Ricardo, pequeno e úmido. O quarto de Ricardo: cama desarrumada; computador; sujeira no chão. Bati minha cabeça na lateral da cama. O interior das minhas coxas ficou vermelho. O acordar e o singelo bilhete:
                       Obrigado por tudo. Tive que sair. Nos vemos semana que vem.
    - Camila, me deixe em paz. Você sabe o quanto a falência de meu pai afetou minha sensibilidade. Desde que tudo isso começou, com a Polícia Federal e seus agentes, fica mais difícil para mim manter a cabeça no lugar.
    E isso foi o que Rodolfo me disse. Rápido olhei a estátua da Mãe. Dois fios de lágrimas correram pelos meus olhos. Pedi desculpas e jurei nunca mais lhe atazanar com nada.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Jussara



Com efeito, o negro escravo fora condicionado, por toda a sua experiência anterior, a lutar contra o seu desgaste no trabalho, do qual procurou se poupar de todos os modos, como medida elementar de autopreservação. Fora igualmente habituado a uma dieta frugalíssima e a posses mínimas, que se reduziram aos trapos que trazia sobre o corpo. E fora, ainda, reduzido a si mesmo, como indivíduo, pela impossibilidade de manter vínculos familiares, já que suas mulheres eram também coisas alheias e seus filhos igualmente propriedade do amo.

                                                     Darcy Ribeiro - O Povo Brasileiro


    Ontem Jussara fugiu aqui de casa. Negríssima, soteropolitana, dezenove anos. Veio trabalhar na casa de vovó Adelaide, branca, interiorana, noventa e quatro anos.
      É mais uma empregada que literalmente foge do serviço. Saiu para suas férias no final de semana e não voltou mais. Vovó fuçou em seu guarda roupa e descobriu que restava apenas uma blusinha vermelha. Não sei se o salário de fome, mil reais, teve alguma razão. Pode ser a jornada de trabalho excessiva, de vinte e quatro horas, sete dias por semana, com férias de menos de dois dias a cada duas semanas. Partia sábado de manhã e deveria voltar domingo à noite.
      O caso é que a mãe de Jussara ficou doente. Seria operada em breve. Titia Manoela achou por bem proibi-la de voltar à casa para cuidar da mãe. Deveria ficar aqui para cuidar de sua mãe, minha avó. Afinal, os problemas que lhe traria deixar vovó sem funcionária eram enormemente maiores do que liberar a jovem para cuidar de sua mãe na Bahia de Todos os Santos.
     É engraçada essa fuga das empregadas. Jussara não foi a primeira. Nem a décima quinta. Talvez a trigésima. Obviamente tem a ver com a baixa remuneração, o alto tempo dedicado ao trabalho e a energia psíquica dispendida ao cuidar de uma senhora de outra moral e outra época. Mas, qual será o destino de Jussara? Por certo não tinha carteira assinada. Nem Fundo de Garantia.
     Darcy Ribeiro conta-nos, n’O Povo Brasileiro, que os negros alforriados em 1888 não tiveram outro destino senão a marginalidade. Nos engenhos e fazendas, como mercadorias dos senhores, ao menos deveriam ser cuidados. À passagem para assalariados, nem isso. Seu desgaste era culpa deles mesmos. Seu despreparo, também.
     Nessa fuga aqui de casa não houve capitão do mato. Apesar de minha tia, inclinada à profissão, ter pedido para vovó checar se não faltava nada em casa. Lógico, a cor de Jussara nada tem a ver com isso. Fosse uma alva empregada sulista, titia teria o mesmo comportamento.
    Os bandeirantes estão soltos. Jussara não pode voltar sob o risco de ser taxada de irresponsável. E quem seria ela para discutir com titia imperial, que inclusive se autoproclama Dona”? Difícil. Ao engrossar, elevar a voz, titia reveste-se de um racismo classista. Jussara fica pequena, pequenininha, apesar de ser uma mulher bem maior que a encrespada carcamana.
    Jussara também não ganhará o dinheiro relativo à semana e meia que passou aqui. Não que não mereça. Mas ela deve aprender na prática. Titia não quer o mal das subalternas. Ela quer ensiná-las. Mesmo que isso signifique um prato a menos de comida para Jussara e sua mãe doente. Cada um com seus problemas.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Todoconectado

           Conheci a figura numa viagem ano passado. Estávamos os dois a estudo na Europa sob as bênçãos financeiras dos papais. Cabelo longo, na altura do ombro, encaracolado e loiro. A testa grande exibia, pela ausência, a futura calvície. Seus dois olhos meio-verdes preenchiam a cara chapada e branca. Era de assustar se visto no escuro.
 Os dedos finos teclavam o celular tecnológico como se treinasse. Durante a aula enviava mensagens, checava a temperatura - apesar de não estar nem muito quente nem muito frio - e batia papo com quatro ou cinco pessoas simultaneamente. Na hora de assinar a lista de presença quase denunciava-se deixando-a passar batida.
 Conversava muito com a namorada - via Skype- e entendia que sua relação era harmoniosa como o fluir dos bytes durante um download. Eu soube qualquer dia por um amigo em comum que quando se encontraram no aeroporto seguiram cada um por lados diferentes. A conexão fora prejudicada por alguma interferência. Fora dos perfis online era difícil se aguentar.
Como qualquer brasileiro na Europa queria viajar bastante. Mas desenvolveu um estranho gosto por aeroportos depois que, numa viagem de uma semana, percorreu cinco países. A partir daí gostava mesmo era de caminhar bastante por eles e conhecer toda a gama de instalações aeroportuárias. Desde os guichés automatizados, atentos aos comandos de voz, até o balcão do duty-free de eletrônicos. Sistematizou todos da zona europeia e até mesmo do mundo árabe. Tudo no seu iPad a tiracolo, pronto a registrar, do momento, tudo e nada.
aprisionado entre quatro
prédios,
o calor é tanto,
os óleos musculares escorrem,
a agulha aproxima-se
e o incenso queima eufórico.

ficar doente sempre é contrariar uma criança

estou hoje cego como se soubesse a verdade
e, numa ligação ocasional, visse jorrar pelos poros da garganta toda hipocrisia do mundo]

descubro-me doente, as coisas se encaixam:
é como se a vida inteira tivesse me preparado para estar doente.